Ivan Saraiva: Pastor de “Está Escrito” analisa o cristianismo do século 21

Pastor do Ministério “Está Escrito” fala sobre a juventude e desafios para igreja

Nascido em Curitiba (PR), o pastor Ivan Saraiva, da Igreja Adventista do Sétimo Dia, formou-se em Teologia e Pedagogia, assumiu diversos cargos e, atualmente está à frente do Ministério Está Escrito. Voltando sua ações principalmente para um público externo ao meio eclesiástico, ele conta como desenvolve sua forma de comunicar o Evangelho. Nesta entrevista, aborda temas polêmicos como pedofilia, ideologia de gênero, tecnologia e omissão da igreja, além de destacar seus planos para 2018. Confira.

Como iniciou sua vida cristã?
Eu não tinha nenhuma denominação religiosa. Não era nem católico praticante, nem evangélico, nem espírita. Não era nada. Mas estudava numa escola adventista perto da minha casa, e isso era muito cômodo. Foi nessa escola que dei meus primeiros passos dentro do cristianismo. Em alguns momentos, aquilo me atraiu; em outros, me afastou. Mas conheci um professor de Religião que tinha uma abordagem diferente, muito mais inclusiva. O seu jeito de ver e encarar o adolescente me encantou. Então pensei: “Puxa! Existe vida inteligente divertida dentro do cristianismo!”. Comecei a estudar um pouco mais a Bíblia. E foi assim, até compreender a vontade de Deus.


Seus vídeos com reflexões no Ministério Está Escrito chegam a milhões de celulares. Existe alguma preocupação de que seu nome, sua imagem, fique maior do que a mensagem?
Tenho essa preocupação. Desenvolvo um ministério na televisão, na TV Novo Tempo, na rádio e nas plataformas digitais. E tenho muito claro na minha mente que quem pode atrapalhar tudo sou eu. As pessoas precisam de Deus e de Sua Palavra. Ela é perfeita; Deus não erra. Então, quem pode atrapalhar? As minhas orações antes de pregar, antes de gravar, é para que o Senhor me ajude, porque se eu não atrapalhar já vai ser um grande favor que presto à pregação do Evangelho. No início do meu ministério, cometi a insanidade de orar pedindo a Deus eloquência e, ao longo do tempo, fui percebendo que essa característica pode ser um fator destruidor. Quando o orador é maior do que o conteúdo que apresenta, é um perigo. Já pedi perdão a Deus dizendo: “Senhor, eu não quero eloquência, eu quero que Tua mensagem chegue e que minha eloquência não impeça que as pessoas vejam o que elas precisam enxergar”.

Como lida com as críticas? E de onde vem tanta inspiração?
Não me pauto pelos elogios nem pelas críticas. Caso contrário, estaria morto. As duas coisas podem matar você. A questão não é o que eu quero pregar ou por que está todo mundo pedindo que eu pregue. Por exemplo: hoje há um debate grande com relação à ideologia de gênero e também uma pressão para se falar disso. E sinto que em algum momento eu vou falar, mas Deus está montando as coisas dentro do meu coração e da minha mente. Então, não adianta eu colocar a carroça na frente dos bois.

Preciso saber o que o Espírito Santo está dizendo, porque não quero ganhar um debate, quero ganhar corações. Não quero estar certo e provar que estou certo. Quero poder fazer um contraponto a tudo isso que está acontecendo, para talvez ajudar a minimizar a raiva e o ódio arraigados nessa disputa que está existindo entre católicos e evangélicos, que estão neste momento no mesmo barco, e parte da sociedade, que é uma minoria, está fazendo muito barulho, tentando impor algumas coisas.

Não quero ser mais um falando contra ou a favor. Gasto mais tempo orando do que preparando, porque Deus é quem tem que dar a mensagem. O meu público não é a Igreja Adventista. Meu ministério se voltou para todas as pessoas, de todas as denominações: kardecistas, evangélicos, protestantes, pentecostais, católicos, anglicanos. A Palavra de Deus precisa nos unificar e nos mostrar um caminho onde o amor esteja recheando tudo isso.

A propósito, a Igreja se dedica mais às atividades do que à oração?
Vivemos uma crise sem precedentes no cristianismo. Essa ideia de que nós temos 1,3 bilhão de cristãos no mundo, isso não existe. Temos milhões de católicos, milhões de assembleianos, batistas, adventistas, mas cristãos são poucos.

Corro o Brasil inteiro, o mundo, e vejo as pessoas levantando mais a bandeira da sua denominação do que a do cristianismo. Elas são mais fiéis às suas igrejas do que a Cristo. Jesus parou de ser o centro da nossa mensagem, e a gente colocou o pecador ali. As igrejas estão mais preocupadas com a felicidade dos crentes do que com a santidade deles.
Então, quando a gente inverteu e colocou o pecador no centro, e não Cristo, a gente criou uma outra religião. Brinco que, se Jesus Cristo vivesse hoje em dia, talvez Ele não fosse cristão, porque a gente deturpou muito o cristianismo. Saímos muito daquilo que a Bíblia apresenta na Igreja primitiva.

Precisamos fazer um resgate, voltar ao Evangelho. Tenho uma proposta muito simples para o cristianismo: fechar todas as igrejas e voltar para a Bíblia. Vamos fundar a religião cristã. Estamos perdidos dentro de nós mesmos. Precisamos voltar para o Evangelho, repensar algumas coisas e baixar a bandeira da nossa igreja e levantar Jesus e a proclamação desse Cristo vivo.

O que pensa sobre os movimentos de cristãos que não se adaptam à Igreja e estão voltando para os encontros?
Isso é um grito das pessoas, procurando uma outra coisa diante da falência da instituição Igreja. Quando, ao fazer o check-in no hotel, preencho a ficha com a profissão pastor, as pessoas dão uma risadinha, porque a nossa vocação ministerial foi achincalhada. Hoje, falar que é pastor é tão constrangedor quanto dizer que é deputado. Então, há falência dentro da instituição Igreja, e as igrejas não se apercebem disso.

Os movimentos de pessoas que querem voltar para os lares mostra a procura pela espiritualidade e não pela religiosidade, mas a Igreja minimiza isso, ela não está vendo que se trata de um movimento que vai se tornar cada vez maior. A gente precisa de uma reforma também dentro da Igreja, porque, quando os bons saem, fica ainda pior a instituição. A Igreja foi fundada por Cristo. O Corpo de Cristo precisa ser fortalecido, precisamos ser sal.

É uma denúncia também?
Claro! E a gente precisa saber onde está errando. Qual é o nosso foco? Por que as pessoas estão sentindo isso? Por que não conseguem sentir a mesma espiritualidade na igreja, assim como sentem nos lares? Como está a nossa liturgia? Será que não estamos imitando demais o mundo? Será que a gente não está fazendo show demais e tocando pouco o coração? Precisamos fazer uma reflexão sincera e estar dispostos a mudar, mesmo que percamos público, audiência nas redes sociais, nas mídias…

Quando se quer abraçar o muito, aperta-se pouco. Então, torna-se um negócio meio plasma, meio clara de ovo, sem sabor. E a pessoa vai buscar alternativas, que nem são as melhores. A porta é estreita, o caminho é apertado, então não é tão simples achar assim.

Diante das tentativas de se descaracterizar princípios e de se criminalizar a família, que orientações daria?
Vivemos um processo de sodomização do mundo. As coisas vão piorar e muito, muito mais do que você imagina. Tenho dito uma coisa que talvez escandalize alguns, mas a nossa geração ainda verá debates a respeito da legalização da pedofilia, e isso não está longe de acontecer. Vou explicar por quê. Existem ONGs no mundo inteiro defendendo isso. E sabe qual é a lógica deles? Sexo é uma expressão de amor. Por que eu não posso expressar dessa maneira meu amor pelo meu filho ou por uma criança? Na Holanda, por exemplo, é lei uma criança de 12 anos, se quiser, poder se casar com qualquer pessoa, inclusive irmão. Se for consensual, ela pode, e os pais não têm autoridade para impedir.

Então, caminhamos a passos largos para isso, e o que nós estamos vendo no Brasil é essa ditadura da minoria. Nós temos um grupo que detém o poder da comunicação, que impõe isso à sociedade, de maneira impressa e na rádio, na TV e na internet. Eu vejo distorções. Deus nos fez livres e anjos livres a ponto de Lúcifer se transformar num diabo. Quem sou eu para impedir a liberdade de alguém? Agora, preciso ter o direito de exercer minha liberdade. Acho interessante, porque, agora, com a ideologia de gênero, a ideia é assim: o menino não nasce menino, a menina não nasce menina, você não pode dizer pra ele que ele é menino, nem dizer pra ela que ela é menina, mas o gay nasce gay. Tem coisa que a gente não entende.

Na Universidade Federal de Minas Gerais, um grupo de rapazes brancos, loiros e de olhos azuis pediu para entrar na cota da instituição, legalmente, judicialmente, como negros, argumentando: “Sou um negro preso no corpo de um branco, então me sinto negro, eu sou negro. Você pode achar que eu não sou, mas sou negro. Então quero entrar na cota”. A gente vai a extremos para mostrar o absurdo da opressão da minoria querendo se impor. Eu não sou a favor da ideologia de gênero, sou a favor da ideologia de Gênesis, macho e fêmea, porque isso é biológico, é lógico, é reprodutivo, e porque a humanidade está nesse caminho há 6 mil anos, pela cronologia bíblica.

Falta posicionamento dos cristãos?
Sim. Precisamos nos posicionar mais e melhor, com mais força. E, além de falarmos, agirmos. Em que sentido? Se existe um determinado meio de comunicação que impõe isso, temos que parar de assistir e não ficar só escrevendo notinha no Facebook. Pode me explicar o que a Avon, O Boticário e o Omo (marcas que fazem propaganda em seus produtos incentivando a ideologia de gênero) têm a ver com a educação dos meus filhos? Preciso me expressar, agir e assumir esse posicionamento de forma mais radical, porque o momento exige isso. Eles estão crescendo, impondo-se.

Lembro-me da frase de Martin Luther King: “Não temo o grito dos maus, mas o silêncio dos bons, dos que se omitem”. Na Segunda Guerra Mundial, 80% da Alemanha não eram nazistas radicais, não concordavam com as câmaras de gás nem com os campos de concentração, mas esses 80% fizeram alguma diferença na história? Nenhuma, porque se calaram; ou pela omissão da ignorância ou porque não queriam arriscar suas vidas.

Eles estão atacando, criminalizando a família, estão vindo com artilharia pesada, e a gente se defendendo com escudinho de plástico. Há uma desproporção nessa guerra. Achei interessante que a igreja Assembleia de Deus se posicionou sobre o Santander, responsável pela exposição de obras de artes e quadros polêmicos mostrando imagens de estupro e pedofilia, no Rio Grande do Sul. Entretanto o que a gente vê é uma postura de “vamos deixar do jeito que está para ver como é que fica”. Com isso, eles estão tomando cada vez mais espaço. No dia em que se impuserem legalmente, vai ser tarde demais. A hora de lutar é agora.

Por que o Encontro Mundial na Alemanha, em 2018, será voltado para a juventude?
É um período muito complexo da vida. É um processo hormonal absurdo. Algumas leituras podem nos ajudar; outras, nos prejudicar. A gente precisa oferecer aquilo que os jovens necessitam, porque aquilo que querem não é necessariamente o que vai ajudar a firmá-los na Palavra de Deus.

Fico muito preocupado quando vejo no nosso meio evangélico essa quantidade absurda de shows. Não me refiro só a apresentação de um cantor mas também ao culto-show, no qual as pessoas passam uma hora e meia cantando. Os cristãos estão em busca de êxtase e de menos comunhão. Se é o que atrai, então é isso que o povo faz, e as igrejas estão cheias de pessoas vazias, sobretudo nessa fase da vida de juventude, adolescência e pré-adolescência. Se tem youtuber popular que faz um monte de piadas, então o cara diz: “Esta é a sacada, vou ser engraçadão e fazer uma edição bem legal para ter muitos seguidores”. A gente precisa perceber o que estamos oferecendo e para onde estamos conduzindo esses jovens.

Certa vez, Jesus pregava para uma multidão, e todos foram embora. Ele olhou e disse: “Vocês querem ir embora também?”. Mas os discípulos responderam: “Senhor, para onde iremos? Só o Senhor tem as palavras da vida eterna”. Mas nós temos medo de esvaziarmos os auditórios das nossas igrejas. Enquanto tivermos medo, vamos continuar fazendo show, continuar preocupados com o ar-condicionado, com conforto, porque precisamos tratar bem, fazer com que as pessoas voltem. Esse é o nosso problema.

Planos para 2018?
Vou focar as redes sociais. Minhas reflexões chegam a 15 milhões de celulares, mas sei que posso fazer mais. Deus está me chamando para isso. Nossa primeira tela hoje é o celular, e eu preciso estar onde as pessoas estão.

Fonte: Revista Comunhão

Categoria:Geral

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